Cultura

Cinco livros essenciais de Paul Auster

Ícone nova-iorquino, superestrela literária, santo padroeiro da cena literária de Brooklyn… Para várias gerações de leitores, Paul Auster foi isso e muito mais. A sua morte com 77 anos de idade, anunciada no passado dia 30 de abril, fez os cabeçalhos dos jornais do mundo, mas funcionou também como cruel lembrete de como o tempo, tema ao qual dedicou grande parte da sua obra, nem sempre lhe foi favorável. Autor de bestsellers como A Trilogia de Nova IorquePalácio da Lua e O Livro das Ilusões, nos quais se debruça de forma recorrente sobre temas como a memória, o envelhecimento, a solidão e a identidade, foi perdendo popularidade perante uma geração entre a qual acredita que: “já ninguém acredita que a poesia (ou a arte) pode mudar o mundo.”

Da sua parte, nunca desistiu de o tentar fazer, e transitando com mestria entre o romance, a poesia, a não ficção e os argumentos de cinema, dedicou-se até aos seus últimos dias a interrogar “o mundo e o seu conflito com a própria linguagem” (Camila von Holdefer, Folha de São Paulo). Na esperança de que a sua ausência terrestre lhe consagre uma nova vida no plano etéreo da literatura, recordamo-lo com cinco obras essenciais para ficar a conhecer ou revisitar a obra que Paul Auster nos deixou.

A Trilogia de Nova Iorque

Sendo a obra que tornou Paul Auster famoso em todo o mundo, é frequentemente recomendada como ponto de partida para todos aqueles que pretendem aventurar-se na sua obra pela primeira vez. Tal como o título indica,  é composta por três romances originalmente publicados em sequência sob os títulos Cidade de Vidro (1985), Fantasmas e O Quarto Fechado à Chave (ambos em 1986), e desde então reunidos num único volume. Inventiva e intricada, A Trilogia de Nova Iorque subverte os elementos e estereótipos típicos dos romances de detetive, inspirados por Roberto Bolaño, Ricardo Piglia ou Mario Levrero, resultando em três fascinantes histórias de mistério, centradas no submundo de Nova Iorque.

Palácio da Lua

Atualmente disponível apenas em e-book, Palácio da Lua é o quarto romance do autor, originalmente publicado em 1989. Igualmente passado em Nova Iorque, a cidade da qual Paul Auster se tornou um símbolo, apesar de ser natural de Newark, é um romance de formação sobre um jovem órfão, Marco Stanley Fogg, que tenta sobreviver em Manhattan depois de perder o seu único familiar. Como Marco Polo rumo ao Extremo Oriente e Phileas Fogg nos seus 80 dias à descoberta do mundo, Marco enceta uma viagem de etapas essenciais marcada pela exultação e pela tragédia, por estranhas coincidências e maravilhosos rasgos de lirismo e erudição. Atravessando três gerações, desde o início do século XX à chegada à Lua, Palácio da Lua é uma narrativa singular sobre o acaso, os envolvimentos familiares e o lado mais humano do dia-a-dia na cidade que nunca dorme.

Leviathan

Três anos mais tarde, em 1992, Paul Auster publica Leviathan, romance que pede o título emprestado ao tratado de Thomas Hobbes sobre o papel do governo na sociedade. Nele, Benjamin Sachs, um escritor de talento reconhecido, torna-se bombista, provocando a morte de um homem, e Peter Aaron, seu amigo de longa data, tenta desvendar o mistério que o levou a tomar essa decisão. Introspetivo e pleno de suspense, é um estudo inesquecível sobre as relações humanas e a rutura provocada pelos inesperados atos de violência da vida quotidiana.

O Livro das Ilusões

Considerada pelo conceituado crítico James Wood como a melhor obra de ficção de Paul Auster, O Livro das Ilusões, publicado em 2002, revisita uma personagem já conhecida dos leitores de Palácio da Lua. David Zimmer, um velho amigo de faculdade de Marco Fogg, torna-se o protagonista desta história em que a solidão, o isolamento, a obsessão e o luto são o ponto de partida. Para combater a depressão após a morte da mulher e dos filhos num acidente de avião, Zimmer entrega-se à escrita de um livro sobre Hector Mann, um virtuoso do cinema mudo dado como desaparecido em 1929. Contudo, o poder narrativo de Paul Auster transporta-nos muito além da magia do cinema mudo e mergulha-nos no coração de um universo muito pessoal, em que o cómico e o trágico, o real e o imaginado, a violência e a ternura se misturam e dissolvem.

4, 3, 2, 1.

Nenhuma lista de leitura essencial de Paul Auster pode estar completa sem esta que é a sua obra mais ambiciosa. Escrito durante sete anos, este romance de 900 páginas publicado em 2017, acompanha quatro versões da vida de Archie Ferguson, o protagonista, que dependem tanto do acaso quanto das escolhas, boas e más, do mesmo. A ordem dos eventos pode alterar drasticamente o curso de uma vida, mas que detalhes específicos têm o poder de mudar o desfecho de uma biografia? É essa a questão à qual o autor tenta responder nesta obra pré-selecionada para o Man Booker Prize 2017 na qual demonstrou toda a potência da sua imaginação.